quinta-feira, 28 de abril de 2011

Ouro Preto



Ouro Preto era uma cidade dúbia para mim.
Por um lado, era como uma musa distante, prometia perfeição, graça e sabedoria e, por isso, me seduzia.
Por outro lado, era como a moça bonita no final da festa, aquela que já bebeu além da conta, perdeu a postura e a maquiagem e, por isso, eu a repudiava.
Ouro Preto era uma paixão platônica que, paradoxalmente, me causava certo repudio. Não sabia se, no dia em que nos conhecêssemos, iria amá-la ou odiá-la.
Adiei esse encontro por anos, sempre com alguma desculpa. Ora não tinha dinheiro, ora não tinha tempo, ora tinha tempo e dinheiro, mas não queria ir sem companhia. Até que finalmente me vi encurralada, eu iria, “de graça”, num feriado prolongado e na companhia de outros 95 coleguinhas.
Eu podia fugir, sempre se pode fugir dessas situações, mas não quis. Finalmente fui conhecer minha temida musa, que podia se revelar uma medusa quando me aproximasse.

Não foi paixão a primeira vista. De jeito nenhum. Não foi paixão nem a segunda vista, mas lá pela quinta ou sexta troca de olhares, de certo ângulo, com a inclinação certa da luz...ela me fisgou.



Irresistivelmente. Tanto que, fico aqui matutando, tentando descobrir como estará agora. Como serão suas ruas sem as hordas de turistas, como serão suas ladeiras sob chuva fina, como será um arco-iris enfeitando a tão alta Igreja de Santa Ifigênia.
Fico pensando no quanto não conheci dessa musa (tão nova para mim). Não lamento os mistérios que não desvendei, a paixão necessita-os, sem uma boa dose de desconhecimento que paixão sobrevive? Os mistérios é que nos dão o ímpeto para o segundo, terceiro, para o milésimo encontro.
Ouro Preto agora é para mim como um flerte novo, no qual me pego pensando no meio do expediente, planejando encontros, conversas, presentes que serão ofertados. Tudo na esperança de conquistá-la também, apesar de saber que, em sua longa trajetória, eu sou apenas mais uma, sou Eco e ela é Narciso.

Um comentário:

Babi disse...

acho que eu me apaixono fácil, e por quase tudo. não há flerte nos meus encontros com as cidades - nem com as pessoas, na verdade.

gostei tanto do texto, tamires! mó bem escrito! :)
(embora vocês me superestimem).